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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Momento das Trevas Wiccano



O momento de trevas do Wiccano é assunto muito delicado e não é achado com facilidade em livros, mas vou tentar colaborar assim mesmo comentando sobre o fato. Antes de mais nada, nas Tradiçoes Wiccanas esse período é chamado de enfrentar o guardião das sombras;. Starhawk no livro: A Dança Cósmica das Feiticeiras; dedica um capitulo a isso (aconselho a leitura desse livro). Nós, chamamos de Fase de Neutralidade; esse momento crucial que acontece com todos os Bruxos e Bruxas, e posso me arriscar a afirmar que esse momento não é exclusivo dos neófitos, mas pode abater-se sobre nós que já estamos nas sendas ancestrais há mais tempo, em qualquer fase de nossas vidas. É um momento difícil que se configura em geral por perdas de coisas que dávamos valor na vida, ou por súbitos problemas que nos assenhoram quando estamos nos firmando na Arte. Já ouvi crendices a respeito desse momento do tipo: “É A DEUSA E O DEUS TESTANDO A NOSSA FÉ”
Consideramos isso pura bobagem, pois desqualificaria uma das caracteristicas fundamentais da Divindade, a saber, a onisciencia (capacidade de saber de todas as coisas sem limitações do tempo-espaço e que só é inerante ao Supremo ser Craidor-Criadora, conforme expressa o livro os Mistérios Wiccanos de Raven Grimassi em sua parte sobre egrégoras e deidades). Mas o que é então o momento de trevas, neutralidade ou a luta com o guardião do portal das sombras?Esse é o momento em que a dúvida se apossa de nós, ou nossos problemas aumentam consideravelmente e parece que quanto mais clamamos aos Deuses, eles fazem vistas grossas. Em geral nessa fase da vida tudo se vira contra nós. Temos problemas de saúde, ou então financeiros, ou na relação afetiva. Nos sentimos traídos por amigos e nem mesmo nossa família nos entende e, por vezes é ela mesma o foco de tudo. É um quadro assustador, só comparado ao inferno de Dante. Não temos ânimo de limpar nossos altares, nossos encantamentos não dão resultados, nossos amigos se afastam, nossa situação financeira pode dar sinais de fracasso, já não mais nos disciplinamos a celebrar de coração as fases lunares, ficamos quase que completamente afastados da Arte. E é aí que primeiro precisamos entender que a Bruxaria hoje é modismo e muitos se aventuram na Arte apenas por querer parecer diferentes, exóticos, ou por querer chamar atenção para suas revoltas e às vezes trazem à nossa Arte ritos estranhos mesclados de processos da Cristandade e de linhas da chamada Magia Negra (magia não tem cor; meus respeitos à fé alheia), misturando egrégoras poderosas que mais cedo ou mais tarde vão chocar-se e trazer sobre tal praticante a imutável lei do retorno triplo. Uma frase dos escritos cristãos serve muito bem para ilustrar o que estou dizendo (que me perdoem vocês o plágio), muitos são chamados e poucos escolhidos; quando chega então esse momento crítico eles abandonam o barco e na maioria das vezes convertem-se a uma religião recheada de fanatismo e tornam-se críticos ferrenhos da Arte que outrora praticavam. Por outro lado há aqueles que são chamados pelos Deuses para reequilibrar sua vida com o passado e ascender na espiral e esses, quando a coisa fica ruim, superam a fase, apesar das dificuldades e aprendem com a experiência. Mas porque esse momento inequivocamente acontece conosco? Passamos por essa fase porque quando trilhamos na arte, tomamos contato com a nossa sensibilidade adormecida e ela vai aos poucos sendo despertada e começa a mostrar-nos as coisas como elas são e não como fantasiamos no nosso; Mundo de Bob; inconsciente. Nós não queríamos enxergar as coisas como elas eram. No entanto a Bruxaria retira o véu da neblina e nos expõe como somos; automaticamente expõe nossa vida real e não a fantasiada; isso é um duro choque para nós, pois nossas falhas nos são apresentadas de forma dura e fria. Mas, se tivermos a coragem de enfrentá-lo é que percebemos como somos e não como pensávamos que éramos. Descobrimo-nos preconceituosos, cheio de doutrinas morais que nada têm a ver com a Velha Religião; vemos nosso egoísmo, nossa preguiça de trabalhar, a nossa incapacidade de administrar nossas finanças e nossas relações amorosas, reconhecemos que fomos covardes; a falsidade que dedicávamos aos amigos ou que eles sustentavam conosco é revelada, tudo isso explode, adoecendo nossa alma e conseqüentemente refletido em nossos corpos. É um encontro com nosso submundo e nesse encontro nos é revelado o que sempre escondemos. Eu só passei a entender isso quando passei por ele e você só o entenderá, se realmente for alguém que está retornando às Sendas Ancestrais. O que posso dizer de minha experiência como o Guardião é que me sinto mais forte depois de tê-lo absorvido.
Um caso ocorrido com uma Bruxa amiga minha servirá para ajudar-me a falar da sensação de enfrentá-lo numa conversa informal durante um jantar com amigos wiccanos, perguntei a minha amiga: qual a coisa mais importante na sua vida? - ele respondeu-me: minha família é a coisa mais importante de minha vida, nada é mais importante que ela; isso me chocou bastante, limitei-me a dizer: tenho pena de ti, quando tiveres de enfrentar o guardião das sombras; ela então disse: nunca passarei por isso; eu lhe respondi dizendo: se a própria deusa enfrentou o guardião, pois perderá o que mais amava e teve de descer ao submundo (ao fundo de um problema) e enfrentar o terrível senhor das sombras e absorve-lo em si mesma e torna-se uma com ele, você também passará, mais cedo e mais tarde. E a profecia cumpriu-se, conforme predisse; pouco tempo depois, a família que ela amava mais que tudo, praticamente a expulsou de casa (mora com uma tia) e as pessoas que ela mais amava viraram-lhe as costas e ela enfrentou seu guardião das sombras e sofrendo muito, mas até que finalmente iniciou o processo de absorvê-lo e libertou-se. No entanto, ela quase recuava e não absorvia o seu guardião, chegando ao ponto de achar-se abandonada pelos Deuses e deixar a prática da fé. Mas, renasceu das cinzas como a Fênix renovada, e continua trilhando a estrada que leva ao útero divino, mas agora, pronta para o perigo de um novo Guardião do Portal.
Nada disso é Azar ou castigo. Esses problemas sempre nos acompanharam e nós íamos empurrando com a barriga ladeira acima, porém, como uma bola de neve, eles crescem cada vez mais e como tudo que sobe, desce (o que é verdade no microcosmos, fatalmente se revela verdade no macrocosmos) eles desabam sobre nós, nos arrebentando. E passamos a compreender o mito da descida da Deusa, que completamente despida, enfrentou nua o submundo... Então passamos a entender que antes de entrarmos junto com à Deusa em sua descida ao Reino do Senhor das Sombras, éramos o pior tipo de cegos: os que não queriam ver. Mas qual é a importância, desse momento para um Wiccaniano? É durante esse período de trevas e sofrimentos, que percebemos o verdadeiro paralelo e essência de cada uma das três faces da Senhora Suprema (pois sua quarta face é oculta) e de cada um dos momentos da viagem cíclica de seu Filho e Amante. Decepcionados, passamos a entender que a Deusa não é tão somente aquela Barbie de corpo esguio e bem torneado que as imagens dos sites nos apresentam, e nem tampouco a Mãe, que como uma felina, cuida dos filhotes e os protege dos predadores vorazes ou ainda a velha sábia, que igualzinho a nossas avós, nos ensina os chás e encantamentos para cura. É justamente nessa hora, que a Face oculta, daquela que É e Sempre Será, manifesta-se a nós, porém, nem todos suportam encará-la frente-a-frente e se desesperam, principalmente os solitários na Arte, que às vezes, não podem contar em sua cidade com outras Bruxas experientes para lhes auxiliarem (por favor, isso não é uma crítica, ao caminho sagrado do praticante solitário). Essa face da Senhora suprema trás em si uma sensação que não se pode explicar. Talvez a experiência de uma Bruxa amiga nossa que se perdeu do grupo nas profundezas da Gruta do Lapão (Região da Chapada Diamantina-Ba), durante quatro horas, possa esboçar essa sensação (pois sabemos que cada um reage de forma diferente): “quando estava lá, havia uma escuridão que parecia viva; que parecia mover-se, ao apagar a lanterna, sentia que as trevas vinham me abraçar; não lembro o quanto tive medo. Entrei em pânico. Vocês não podem entender o que é estar perdida nas trevas, com um precipício sem fim a poucos metros. Um pavor, um pânico, um verdadeiro inferno, uma escuridão tão densa e tão silenciosa, mesclada ao medo de despencar em uma das valas que existem lá na caverna; gritei desesperada, durante mais de duas horas, e apenas meu eco me respondia. Morcegos voavam e batiam-se em mim. Outros seres típicos das cavernas caíam ou subiam em mim. Eu estava em desespero. Senti-me completamente sozinha e abandonada. Eu sentia que nem mesmo os Deuses estava ali comigo. De repente senti duas presenças ali. Sabia que não eram humanas e nem físicas. Terríveis, gélidas, medonhas, sorrindo sarcasticamente de meu desespero. Suas vozes em minha mente diziam: não suportas nossas presenças, não queria ver-nos, sentir-nos, estamos aqui. E um riso de pavor ecoou em minha cabeça. Apavorei-me e gritei desesperadamente por socorro e nadei. Somente depois de muito esforço compreendi que se tratava da presença de Hécate em seu quarto aspecto, o de rainha Infernal e do Senhor das Sombras. Eu entendi então que estava no reino infernal (meu próprio interior) armada tão somente com meu medo. Sentei-me, abri um circulo e os invoquei. Então a voz dela ecoou em minha alma, como quem dizia: eu estou aqui. Compreendes que precisas morrer e absorver teu medo da morte e da escuridão? Saiba que eu sou negra como as trevas e sou a luz que brilha nas noites no céu. E assim, ali morri no útero dela e renasci uma nova Bruxa, e compreendi o valor de um momento com as trevas. E fui encontrada quatro horas depois, tranqüila e serena”.
O que esse processo doloroso de Transição Pelo Oeste, pode trazer para os que estão, não se convertendo a wicca, mas retornando ao caminho que sempre seguiram, que é o da Bruxaria?
- Tenho certeza que trará para vocês o que chamamos, em nossa assembléia de primeira magia, ou seja:
;O véu que nos protegia da realidade é rasgado, seus pedaços são lançados ao vento leste, Senhor da mente e da racionalidade. Passamos a vislumbrar os problemas e suas conseqüências, que como covardes psíquicos, teimávamos em esconder. Começamos a não mais agir por impulsos. Partimos para a reflexão, para a comparação, para o experimento. Já não mais nos interessam os efeitos especiais das Bruxas cinematográficas e sim o despertar das mudanças internas, das transformações necessárias ao amadurecimento da Bruxa e questionamos se somos realmente nascidos Bruxos e Bruxas ou apenas estamos seguindo modismos.
E neste momento encontra ecos a manifestação da segunda magia; a separação dos que estão realmente retornando a velhas estradas e daqueles que buscam o modismo (conforme artigo anterior intitulado: Bruxaria, Compromisso, Dogma e Responsabilidade), daqueles que abandonam o caminho sagrado. Percebemos enfim, a dança dos movimentos cíclicos da natureza (como bem aborda o Dr. Roberto Lopes em seu livro: O livro da Bruxa) nos será revelada a ;terceira magia ; que consiste em.
Para sairmos desse momento ruim é preciso nos tornar condutores das mudanças e não conduzidos; que isso é um processo iniciático de morte e renascimento, onde alguns renascem e outros não conseguem renascer (abandonam a arte e cegam-se novamente).
Os primeiros momentos do despertar das mudanças que certamente nos acompanharão em nossas vidas de Wiccanianos, foram expostos de forma singela, neste artigo, mas nosso objetico com isto é lembrar, que esse momento doloroso é enfrentado por cada indivíduo de modo pessoal, os buscadores passam a entender o valor dessa mágica experiência e a compreender que o que é ruim para uns, pode ser bom para outros de alguma forma. Durante esse período, devemos aprender enfrentar a realidade e então compreender que não devemos nos acovardar e nem continuarmos esperando que as coisas melhorem, devemos tomar as rédeas da situação e começar o processo de mudança (conforme nos mostra o Livro O Guerreiro Wicca) passando por uma morte espiritual e renascendo completamente vazios para que a Deusa e o Deus criem e moldem a partir daí nossas vidas, pois todas as coisas vieram do vazio e no vazio do nada reside a plenitude da criação.

4 comentários:

  1. Não consigo expressar oque eu senti quando li esse post, eu estou verdadeiramente emocionado.
    Obrigado Alana por compartilhar a tua sabedoria e boa vontade. Muitíssimas bençãos!

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  2. Obrigada a vc querido Silvior. Seja sempre bem vindo!

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  3. De fato, um texto extremamente profundo e esclarecedor. Enquanto eu lia, minhas emoções simplesmente começavam a se misturar...
    Tenho de agradecer pelo excelente texto. Bençãos plenas, e muita luz.

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