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quinta-feira, 22 de março de 2012

A Bruxaria Viva


{Postagem do livro A Bruxaria Hoje, do autor Gerald Brosseau Gardner, "A Bruxaria Viva", do Capítulo I.}


Alguns livros sobre bruxaria - o autor teve permissão de escrever sobre bruxas — "visão de dentro " — iniciações primitivas afins à bruxaria — o poder das bruxas exsuda do corpo, a partir da nudez — a teoria do autor sobre um campo eletromagnético — certos ritos aumentam a clarividência — o autor refuta a visão do sr. Pennethorne Hughes de que a bruxaria é um culto ao mal - rituais das bruxas — bruxas não são pervertidas frus­tradas — sua crença de que seus ancestrais vêm do Oriente e o paraíso é ao Norte - cerimônia do renascimento do sol - o caldeirão da regenera­ção e a dança da roda - a natureza do círculo da bruxa para manter o poder - negação do uso de caveiras, etc. - bruxas nada têm a ver com a Missa Negra - a iniciação à bruxaria desenvolve certospoderes conheci­dos coletivamente como magia - "dentro do círculo elas estão entre os mundos " - necessidade de um parceiro.

Muitos livros foram escritos sobre bruxaria. Os primeiros foram, namaioria, propaganda escrita pelas Igrejas para desencorajar e assustar aspessoas que tivessem conexão com o que para eles era um odiado rival - pois a bruxaria é uma religião. Mais tarde, apareceram livros empe­nhados em provar que esses ritos jamais existiram. Alguns desses livros podem ter sido inspirados ou mesmo escritos pelas próprias bruxas. De­pois, muitos livros trataram da bruxaria de maneira científica, com auto­res como a Dra. Margaret Murray, R. Trevor Davis, Christine Hoyle, ArneRuneberg, Pennethorne Hughes e Montague Summers. O Sr. Hughes, emseu livro mais pesquisado, provou claramente (em minha opinião) o quemuitas pessoas já sabiam: que o Povo Miúdo dos lugares quentes, cha­mados fadas ou elfos em uma época, foram chamados de bruxas maistarde; mas, a meu ver, todos esses livros têm um erro. Embora seus auto­res soubessem que bruxas existem, nenhum deles consultou uma bruxa1



1. Há tanto bruxas homens quanto mulheres, mas em inglês (e em português - n. da T.) uma bruxa é sempre chamada "ela ", de forma que vou usar esse gênero - e o leitor deve entender como sendo tanto masculino como feminino.




sobre suas visões a respeito da bruxaria. Afinal, a opinião de uma bruxa deve­ria ter algum valor, mesmo se não se encaixasse nas opiniões preconcebidas.

É claro que há boas razões para essa reticência. Recentemente, conver­sava com um culto professor continental que escrevia sobre bruxas de dois mil anos atrás e ele me contou que obtivera muita informação das próprias bruxas. Mas, embora tivesse sido convidado, teve medo de comparecer a suas reuniões. O sentimento religioso era muito forte em seu país e, se des­cobrissem que ele se comunicara com bruxas, ele se arriscaria a perder sua cadeira. Além disso, as bruxas são um povo tímido, e publicidade é a última coisa que querem. Perguntei à primeira que conheci: "Por que você mantém secreto todo esse maravilhoso conhecimento? Hoje em dia não há mais per­seguição". Ela me respondeu: "Não há? Se a aldeia soubesse o que sou, cada vez que uma galinha morresse, cada vez que uma criança adoecesse, eu seria a culpada. A bruxaria não paga as janelas quebradas!"2

Sou antropólogo e é consenso que o trabalho de um antropólogo é in­vestigar o que as pessoas fazem e em que acreditam, e não o que outras pessoas dizem que elas fazem ou acreditam. Também é parte dessa tarefa ler tantos escritos sobre o assunto investigado quanto possível, embora sem acei­tar tais escritos cegamente, especialmente quando são conílituosos com o que mostra a evidência. Os antropólogos devem esboçar suas próprias con­clusões e fazer algumas teorias próprias, mas devem deixar claro que aque­las são suas próprias conclusões e teorias, e não fatos provados; e este é o método que proponho adotar. Quando se trata de raças nativas, é preciso gravar seu folclore, as histórias e ritos religiosos nos quais baseiam seu atos e crenças. Então por que não fazer o mesmo com as bruxas inglesas?

Devo explicar por que falo de coisas em geral desconhecidas. Fui por toda a minha vida interessado em magia e assuntos afins, tendo feito uma coleção de instrumentos e encantamentos mágicos. Esses estudos me leva­ram aos espiritualistas e a outras sociedades, quando encontrei pessoas que diziam ter me conhecido em vidas passadas. Aqui devo dizer que, embora acredite em reencarnação assim como a maioria das pessoas do Oriente, não me lembro de nenhuma vida passada, embora tenha tido experiências curiosas. Eu gostaria de lembrar. De qualquer maneira, logo eu estava no círculo e prestei os juramentos usuais de silêncio que me obrigavam a não revelar nenhum dos segredos do culto. Mas, por ser um culto moribundo, sempre lastimei que todo aquele conhecimento devesse perder-se, de for­ma que me foi permitido escrever, como ficção, algo sobre a crença das bruxas na obra High Magic 's Aid?O presente volume tem o mesmo propó­sito, mas trata do assunto de maneira factual.
2.    Lembro-me de um garoto lendo nos jornais sobre uma mulher sendo lentamente queimada até a morte na Irlanda como bruxa. Para esse relato, veja Folk-lore, Vol. 6, 1895: "A queima da Bruxa em Clonmel".
3.    Publicado por Michael Houghton, 49 Museum Street, Londres, W. C. 1.



Muitas pessoas me perguntam como posso acreditar em magia. Seeu explicar o que acredito que seja a magia, dou um grande passo em direção à resposta. Minha opinião é que se trata simplesmente do uso de algumas faculdades extraordinárias. É fato reconhecido que tais faculdades existem. Os chamados meninos calculadores são famosos e muitas pessoas têm a capacidade de, sob transe hipnótico, calcular o tempo mais acuradamente. Enquanto dormem, recebem ordens de fazer algo ao fim de, digamos, um milhão de segundos; eles nem compreenderiam tal ordem em seu estado normal, mas seu inconsciente profundo faz os cálculos e ao fim do milio-nésimo segundo eles obedecem a ordem sem saber o porquê. Tente calcu­lar um milhão de segundos no estado de vigília e diga quando eles se tiverem passado, sem um relógio, para saber o que isso significa. Os poderes usa­dos são completamente diferentes de qualquer poder mental que co­nheçamos. Exercitá-los é, normalmente, impossível. Logo, se há pessoas com poderes além do normal, por que não poderiam haver outras pes­soas com outras formas de poderes extraordinários e modos não usuais de induzi-los?

Continuamente me perguntam sobre o culto das bruxas e apenas pos­so responder: quase todos os povos primitivos tinham cerimônias de ini­ciação e algumas dessas eram iniciações a sacerdócios, a poderes mágicos, sociedades secretas e mistérios. Eles eram usualmente vistos como neces­sários para o bem-estar da tribo, assim como para o indivíduo. Incluíam normalmente a purificação e alguns testes de coragem e força - freqüen­temente severos e dolorosos -, aterrorização, instrução em sabedoria tribal, em conhecimento sexual, na realização de encantamentos e em assuntos gerais ligados à magia e à religião e, freqüentemente, a um ritual de morte e ressurreição.

Eu não questiono os povos primitivos por fazer essas coisas; simples­mente sustento que as bruxas, sendo em muitos casos as descendentes dos povos primitivos, fazem de fato muitas delas. Logo, quando as pessoas me perguntam, por exemplo: "Porque você diz que as bruxas trabalham nuas?", eu apenas posso dizer: "Porque elas o fazem". "Por quê?" é a questão se­guinte e a resposta, simples, é que os rituais dizem a elas que é necessário. Outra resposta é que suas práticas são remanescentes de uma religião da Idade da Pedra e elas mantêm os antigos costumes. Há também a explica­ção da Igreja: "Porque bruxas são inerentemente más". Mas eu acredito que a melhor explicação é a das próprias bruxas: "Porque apenas dessa forma podemos obter poder".

As bruxas acreditam que o poder reside no interior de seus corpos eelas podem libertá-lo de diversas maneiras, sendo que a mais simples é dan­çar em roda, cantando ou gritando, para induzir um frenesi; esse poder que elas crêem exsudar de seus corpos seria retido pelas roupas. Tratando de tais assuntos fica difícil, é claro, dizer o que é verdade e o que é imaginação.


No caso da rabdomancia, se um homem acredita que quando é isola­do do chão por palmilhas de borracha não pode encontrar água, essa crença o inibe, mesmo se as palmilhas não contêm borracha, enquanto que se ves­tir palmilhas de borracha - embora não o sabendo - ele pode encontrarágua, como muitos experimentos provam.

É fácil imaginar que uma bruxa que acredita firmemente ser essen­cial estar nua não poderia empreender o esforço necessário para atingir oêxtase sem estar nua. Porém, uma outra que não compartilhasse dessa crença poderia, mesmo estando parcialmente vestida, empregar suficiente energia para forçar o poder por seu rosto, ombros, braços e pernas, obtendo algum resultado; mas quem poderia garantir que ela não estaria produzindo duas vezes aquele poder com metade do esforço se estivesse na nudez tradicio­nal? Apenas podemos ter certeza de que nos tempos antigos as bruxas fa­ziam dessa forma e mesmo viajavam até seus encontros nesse traje; mas em tempos mais recentes a Igreja, e mais especialmente os Puritanos, ten­taram silenciar esse fato e inventaram a história da velha louca em uma vassoura, para substituir a história conhecida de danças selvagens de jo­vens e belas bruxas sob a luz da lua.

Pessoalmente, inclino-me a acreditar que, embora dando margem àimaginação, há algo de certo na crença das bruxas. Penso que há na nature­za um campo eletromagnético que rodeia todos os corpos vivos, que algu­mas pessoas vêem e a que chamamos aura. Algumas vezes eu mesmo a posso ver, mas apenas em carne nua, de modo que as roupas evidentemente obstruem seu curso; porém, essa é simplesmente minha crença pessoal. Acredito que uma bruxa, com suas fórmulas, a estimula, ou possivelmente a aumenta. Dizem que bruxas, com prática constante, podem treinar suas vontades para potencializar essa força nervosa, ou o que quer que seja, e que suas vontades unidas podem projetá-la como uma irradiação de força e que elas podem usar de outras técnicas para adquirir a clarividência, ou mesmo para alcançar o corpo astral. 


Essas práticas incluem aumentar e acelerar o fluxo de sangue, ou em outros casos desacelerá-lo, assim como o uso da vontade-poder; então é razoável acreditar que produza algum efei­to. Não estou afirmando que produz. Apenas registro o fato de que elas buscam tais efeitos e acreditam que algumas vezes eles ocorrem. O único modo de provar a verdade ou falsidade disso seria experimentando (eu poderia pensar que tangas ou biquínis poderiam ser usados sem necessa­riamente causarem perda de poder. Seria interessante testar o efeito de um grupo na tradicional nudez e um outro de biquíni). Ao mesmo tempo, po-der-se-ia citar o ditado das bruxas: "Você deve estar dessa forma sempre deacordo com os ritos, este é o comando da deusa". Você deve fazê-lo de modo que se torne uma segunda natureza; você não está mais nu, apenas natural e confortável.

O culto, seja na Inglaterra ou em qualquer outra parte, começa comdiversas vantagens. Primeiro, usualmente as recrutas são muito jovens, sendo lentamente treinadas até terem o senso do mistério e do fantástico, o conhecimento de que têm uma tradição de eras por trás delas. Elas prova­velmente viram acontecer coisas e sabem que elas podem voltar a aconte­cer; em vez de mera curiosidade ou de crença piedosa de que "algo pode ocorrer", inibidas por um desconhecimento, mas uma firme crença de que "nunca acontecerá comigo".

O que ocorreu, então, foi isto: certas pessoas nasciam com poderes de clarividência. Elas descobriam que certos ritos e processos desenvol­veriam tais poderes, de forma que eles se tornariam úteis à comunidade. Elas cumpriam esses ritos e obtinham benefícios; sendo felizes e tendo sucesso, eram olhadas com inveja e antipatia pelos outros, tendo come­çado a cumprir seus ritos em segredo. O poder que pode ser usado para o bem pode também ser usado para o mal, e algumas vezes elas eram tenta­das a usá-lo contra seus oponentes, o que as tornou mais impopulares. Como resultado, calamidades eram atribuídas a elas e pessoas eram tor­turadas até confessarem tê-las cometido. E quem poderia culpar os filhos de alguns desses que foram torturados até a morte por fazer uma imagem de cera de seus opressores?

Em resumo, tal é a verdade sobre a bruxaria. Nos dias vitorianos elaseria chocante., mas, nestes dias de clubes nudistas, seria tão terrível? Parece ser, para mim, uma espécie de festa de família na qual se tenta um experi­mento científico de acordo com as instruções de um livro.

Eu gostaria, agora, de tratar da visão, muito freqüentemente sus­tentada, de que a bruxaria tem conexões com o demonismo. O próprio sr. Summers parece pensar que a questão está resolvida apenas por­que a Igreja católica romana disse que o culto é diabólico, e o livro do sr. Pennethorne Hughes também dá a impressão de que a bruxaria seria um culto ao mal. O Sr. Hughes diz na página 128:

"Enquanto o culto declinava, alguma prática comum deve ter sidoperdida, pois por volta do século XIX os praticantes caseiros do demonismo autoconsciente meramente conduziam a Missa Negra do catolicismo in­vertido. Na época dos julgamentos havia obviamente uma espécie de ser­viço formal bastante separado do crescendo da dança da fertilidade. Numa era católica, seria muito parecido com o conhecido esplendor das celebra­ções da própria Igreja, com velas, vestes e uma paródia de sacramento. Deveria ser conduzida por um sacerdote destituído, usando hóstias cocn o nome do diabo estampado em vez do de Jesus e o enlameamento do cruci­fixo - para insultar os cristãos e agradar ao Demônio. O próprio Demônio recebia orações e homenagens. Uma liturgia do diabo era repetida, haivia um sermão zombeteiro e uma absolvição feita com a mão esquerda e uima cruz invertida."

Aqueles presentes nesses encontros, ele trata da seguinte maneira(página 131):
"Alguns eram, talvez, pessoas com perversões reprimidas e tinhamvergonha ou orgulho culpado; alguns eram apenas membros de uma dinastia primitiva, já quase desaparecida, mas ainda seguindo os passos de seus pais, sabendo que a Igreja os desaprovava, mas encontrando nisso satisfação físi­ca e psicológica. Alguns eram extáticos. 'O Sabá', disse um deles, 'é o ver­dadeiro paraíso'."

O Sr. Hughes não diz por que ele pensa que eles teriam aberto mão de seus próprios ritos, que eram feitos com um propósito definido e produ­ziam resultados definitivos, para simplesmente parodiar os de uma fé es­tranha. Presenciei diversos desses rituais e declaro que a maior parte do que ele diz não é verdadeiro. Pode haver uma dança da fertilidade, mas os outros ritos são simples e têm um propósito, e de nenhuma maneira se parecem com os da católica romana ou qualquer outra Igreja que eu conhe­ça. É verdade que às vezes há cerimônias curtas em que bolos e vinho são abençoados e comidos (elas dizem que, nos antigos tempos, hidromel e cerveja eram freqüentemente usados). Pode até ser uma imitação do ágape cristão primitivo, a Festa do Amor, mas não há nenhuma sugestão de que o bolo se torne carne ou sangue. A intenção da cerimônia é ser um curto repasto, embora seja definitivamente religioso.

As sacerdotisas usualmente presidem. Velas são usadas, uma para ler o livro e outras em torno do círculo. De forma alguma isso se parece com a prática de qualquer seita religiosa que eu conheça. Não acho que possa ser chamado "imitação do esplendor da Igreja".

Não há crucifixos, invertidos ou o que seja, não há sermões, zomba­ria e nenhuma absolvição ou hóstias, salvo o bolo e o vinho já menciona­dos. O incenso é usado, mas tem um propósito prático. Não há oração ouhomenagem ao diabo, nem liturgia, ou mal, nem nada do tipo, nada é ditode trás para a frente e não há gestos com a mão esquerda; de fato, com aexceção de ser um serviço religioso e de todos os serviços religiosos serem semelhantes, os ritos não são de forma alguma imitação de nada que eu tenha visto. Não digo que nunca tenha'havido demonistas. Apenas digo que, até onde conheço, as bruxas não fazem as coisas de que são acusadas e, conhecendo como conheço suas religiões e práticas, não penso que elas já as tenham feito.

Naturalmente, é impossível falar por todas. Já li que sacerdotes eclérigos foram condenados por todos os crimes que há na lei inglesa, e nà Ilha de Man sacerdotes foram condenados por ter cantado salmos de des­truição contra povos (ver Isle of Man N. M. & A. Soe. Proceedings,vol. V, 1946), o que, ao menos para mim, é um novo crime; mas isso não significa que a maioria dos sacerdotes e clérigos sejam criminosos. Também não penso que seja justo acusar as bruxas de pervertidas enrustidas. Elas po­dem ser chamadas de seguidoras de uma religião primitiva, já em vias de desaparecimento; elas seguem os passos de seus pais, sabendo que a Igreja desaprova suas práticas, mas encontrando nisso satisfação física e psicoló­gica. Não se pode dizer o mesmo dos budistas e xintoístas? Eles têm anti­gos e, para eles, bons ritos e não se preocupam se os outros os desaprovam. Tudo o que importa é: estão no bom caminho? Aprendi a tolerância nos muitos anos que passei no Oriente e, se alguém acha que o verdadeiro paraíso está nos ritos budistas, no Sabá ou na Missa, fico contente por ele da mesma forma.

Se me fosse permitido revelar todos os seus rituais, seria fácil provarque as bruxas não são demonistas; mas os juramentos são solenes e asbruxas são minhas amigas. Eu não gostaria de ferir seus sentimentos. Elas têm segredos que lhes são sagrados. Têm grandes razões para seu silêncio. Porém, tenho permissão para fazer um resumo de seus ritos. Isso pouco diz, pois além dos ritos elas próprias pouco conhecem. Por uma razão qual­quer, elas mantêm o nome de seu deus ou deusa em segredo. Para elas, o culto existiu imutável desde o princípio dos tempos, embora haja uma vaga noção de que o antigo povo veio do Oriente, possivelmente como resultado da crença cristã de que o Leste é o lugar sagrado de onde tudo nasceu. Deve-se notar que as bruxas começam pelo Leste a formar o círculo, e a imagem do deus ou deusa é usualmente posta a leste. Pode ser simples­mente porque o Sol e a Lua nascem no Leste, por causa da posição do altar ou por qualquer razão desconhecida, uma vez que na verdade as invoca­ções principais são dirigidas ao Norte. Não me foi dada nenhuma razão para isso; mas tenho idéia de que nos tempos antigos acreditava-se que o paraíso era no Norte, sendo que elas afirmam que as Luzes do Norte são as luzes de seu paraíso, embora comumente se pense que ele é sob a terra ou em uma colina oca. Deve-se notar, também, que a mitologia escandinava faz do Norte a morada dos deuses e que no mito gaélico o Sul, freqüentemente camuflado como a "Espanha", é o mal ou o inferno. Presumivelmente, seu oposto, o Norte, é o paraíso.

Assisti a uma cerimônia muito interessante: o Caldeirão da Regene­ração e a Dança da Roda, ou Yule, para fazer com que o sol renasça, ou com que o verão retome. Em tese, deveria acontecer em 22 de dezembro, mas hoje em dia é realizada na data mais próxima em que seja conveniente para todos os membros. A cerimônia começa da maneira usual. O círculo é construído e purificado, sendo também os celebrantes purificados da ma­neira usual e os procedimentos normais do culto são cumpridos. Então a pequena cerimônia é realizada (geralmente chamada "Atraindo a Lua"). A grande sacerdotisa é vista como uma encarnação da deusa. Segue-se a ceri­mônia do Bolo e do Vinho. Então um caldeirão (ou algo que o represente) é posto no meio do círculo, cheio de aguardente, e inflamado. Várias ervas, etc, são adicionadas. Então as sacerdotisas ficam perto dele, na posição de pentágono (deusa). A Grande sacerdotisa fica de pé no lado oposto do caldeirão, liderando o canto. As outras formam um círculo, segurando suas tochas. Estas foram acesas no caldeirão em chamas e elas dançam em tor­no na direção "solar", ou seja, no sentido horário. O canto que ouvi foi o seguinte, embora outros sejam também usados:


"Rainha da Lua, Rainha do Sol Rainha dos Céus, Rainha das Estrelas Rainha das Águas, Rainha da Terra Traga a nós o Filho da romessa!4
É a grande mãe que o dá à luz
É o Senhor da Vida que renasceu
A escuridão e as lágrimas são deixadas de lado
Quando o Sol aparece de manhã
Sol Dourado das Montanhas
Ilumina a Terra, Acende o Mundo,
Ilumina os Mares e os Rios
As tristezas são deixadas de lado, alegria no Mundo
Abençoada seja a Grande Deusa Sem princípio, sem fim Infinita pela eternidadeI.O.EVO.HE seja abençoado."

Elas dançam em roda furiosamente, gritando:

"I.O.EVO.HE
Abençoado seja I.O.EVO.HE seja abençoado".

Algumas vezes os pares se dão as mãos e pulam sobre o caldeirão em chamas, como pude ver. Quando o fogo se extingue, a sacerdotisa coman­da as danças usuais. Segue-se a isso uma festa.

Haverá algo muito mau ou terrível nisso? Se fosse realizado em umaIgreja, omitindo-se a palavra deusa ou substituindo-a pelo nome de umsanto, alguém faria objeções?

Estou proibido de falar de outros ritos por serem definitivamentemágicos, embora eles não façam mais mal do que este. Mas elas não que­rem que se saiba como fazem para aumentar seu poder. As danças que se seguem parecem mais brincadeiras de criança do que danças modernas — podem ser tempestuosas e barulhentas, com muito riso. Na verdade, são mais ou menos brincadeiras de crianças realizadas por gente crescida e, como brincadeiras, têm uma história ou são feitas para um propósito muito mais definido do que simples diversão.

Tenho permissão também para dizer pela primeira vez na imprensa averdadeira razão de a coisa mais importante na cerimônia ser o "Arranjodo Círculo". Elas dizem que o círculo está "entre os mundos", ou seja,entre este mundo e o próximo, o domínio dos deuses.




4. O sol, tido como renascido.
O círculo tal qual é mostrado em pinturas pode ou não ser usado. Não é conveniente marcá-lo com giz, tinta ou nada assim, para mostrar onde está; mas marcas no tapete podem ser utilizadas. Os móveis podem ser dispostos de forma a marcar as bordas. O único círculo que importa é o que é desenhado antes de cada cerimônia com uma espada mágica afiada ou uma faca, conhecida como o Athame das bruxas ou a Faca de Punho Ne­gro, que possui sinais de magia no cabo e é a mais usada. O círculo tem geralmente nove pés de diâmetro, a não ser que seja feito com um propósi­to muito especial. Há dois círculos externos, separados em seis polegadas, de forma que o terceiro círculo tenha o diâmetro de onze pés. Após dese­nhado, esse círculo é cuidadosamente purificado, assim como todos os que celebrarão o rito. As bruxas dão grande importância a isso, uma vez que dentro do círculo está o domínio dos deuses.

É necessário que haja uma distinção clara entre este e o trabalho de um mago ou feiticeiro, que desenha um círculo no chão e o fortifica com palavras carregadas de poder e invocações (ou tentativas de evocar) deespíritos e demônios para obedecer a suas ordens. Nesse caso, o círculo impede que eles lhe possam fazer mal; ele não ousaria sair dali.

O Círculo das Bruxas, por outro lado, é para manter o poder que elas acreditam fazer crescer de seus próprios corpos e para evitar que ele seja dissipado antes que elas possam moldá-lo à sua vontade. Elas podem pisar fora ou dentro se o desejarem, mas isso envolve alguma perda de poder, de forma que elas evitam fazê-lo tanto quanto possível.

As pessoas tentam fazer-me dizer que, nos ritos, caveiras ou outras coisas repulsivas são usadas. Eu nunca vi tais coisas, mas elas me conta­ram que nos tempos antigos, às vezes, quando o Grande Sacerdote não estava presente, uma caveira e ossos cruzados eram usados para represen­tar o deus, morte e ressurreição (ou reencarnação). Em nossos dias, a Gran­de Sacerdotisa está em posição de representar a caveira com os ossos cruzados, ou morte, e se move para outra posição, o pentágono, represen­tando a ressurreição, durante o rito. Suponho que o tipo de bruxa herbalista da aldeia antiga possa ter usado caveiras e ossos e outras coisas para im­pressionar o povo, já que isso era esperado delas. Elas eram boas psicólo­gas e, se um paciente fosse convencido de que um remédio amargo seria bom para ele, a mistura da bruxa certamente teria um gosto horrível - e conseqüentemente curaria. Se as pessoas acreditassem piamente que mambo-jambo com caveiras e ossos davam à bruxa poder para curar ou matar, então as caveiras e os ossos estariam ali, já que as bruxas eram provocadoras; aquilo fazia parte de seu repertório.

Diz-se freqüentemente que a realização da Missa Negra é parte datradição da bruxaria; mas, para usar as palavras do Dr. Joad, "tudo depende do que se quer dizer" com Missa Negra. No meu entender, é uma paródia blasfema da missa católica. Nunca vi nem ouvi falar disso como tendo rela­ção com o culto e não acredito que esse já tenha sido um de seus ritos. Os ritos são realizados com certos propósitos. Isso leva tempo, mas quando terminados a assembléia faz uma pequena refeição, depois dançam e se divertem. Eles não têm tempo ou inclinação para cair na blasfêmia. Alguém já ouviu falar em pessoas se incomodando para realizar uma paródia de um rito budista ou maometano?

Outra coisa que sempre entendi foi que, para realizar uma Missa Negra, seria necessário um sacerdote católico que realizasse uma transubstanciação válida: o Deus presente na hóstia seria profanado. A menos que fosse uma comunhão válida, não haveria profanação. Eu me surpreenderia por en­contrar um padre católico entre as bruxas em nossos dias, embora no pas­sado se dissesse que muitos tomavam parte nos cultos. Sugeriu-se que as bruxas não realizavam a Missa Negra, mas que as pessoas se tornavam bru­xas obtendo hóstias, seja roubando o sacramento das igrejas ou recebendo a comunhão, mantendo-a debaixo da língua e por fim guardando-a no bol­so; assim elas eram levadas aos ritos e profanadas. Durante toda a minha vida, ocorreram problemas por sacerdotes e missionários terem des ruído ou profanado figuras de deuses bárbaros e também creio que alguns ho­mens de Igreja não-conformistas obtiveram hóstias consagradas e as leva­ram ao ridículo. Mas eu nunca ouvi falar que isso os fizesse bruxos, e não creio que bruxas o fizessem ou façam. Por outro lado, houve diversas ocor­rências de hóstias consagradas sendo usadas de maneira não-ortodoxa por pessoas do povo que não eram bruxas; para acabar com incêndios ou erupções vulcânicas, por exemplo, ou para pendurar no pescoço como amuleto, para trazer a boa fortuna, afastar o mal e, especialmente, impedir ataques de vampiros; mas tudo isso foi feito por crentes. Uma bruxa não faria tais coisas, uma vez que acredita poder fabricar amuletos muito mais poderosos sozinha.

Acredito, porém, que algumas vezes a Missa Negra é realizada. Eucostumava duvidar disso; mas, em fevereiro de 1952, eu estava em Roma e me disseram que padres e freiras destituídos a celebravam de temposem tempos. Meus informantes garantiram poder arranjar tudo para que eu as­sistisse a uma delas, mas me custaria vinte libras; eu não tinha dinheiro estrangeiro suficiente ou teria comparecido, para resolver essa questão para minha própria satisfação. Imagino que fosse provavelmente um espetáculo armado para turistas, embora a pessoa responsável houvesse me informado que não.

Resumindo, acredito que as pessoas podem realizar Missas Negras às vezes para fazer medo, ou com intenção má; mas não creio que essas pes­soas sejam bruxas, ou que saibam algo sobre bruxaria. Por acaso, encontrei mais de uma bruxa em Roma, embora as bruxas se mantenham distantes, e elas nada sabiam sobre a Missa Negra.

Ser iniciada no culto das bruxas não dá a uma bruxa poderes sobre­naturais da forma como os vejo, mas são dadas instruções, em termos bas­tante velados, sobre processos para desenvolver diversas clarividências e outros poderes, naqueles que já os possuem naturalmente. Se eles nada têm, nada podem criar. Alguns desses poderes são afins ao magnetismo», mesmerismo e sugestão, e dependem da possibilidade de se formar uma espécie de bateria humana, combinando vontades humanas para influenciair pessoas ou acontecimentos a distância. Elas têm instruções sobre comco aprender essas práticas. Seriam necessárias muitas pessoas por um longo tempo, se é que entendi bem. Se essas artes fossem mais difundidas e pra-ticadas em nossos dias, poderíamos chamar à maioria delas espiritualismo), mesmerismo, sugestão, P. E. S., Ioga ou mesmo ciência cristã; para uma bruxa tudo isso é Magia, e a magia é a arte de obter resultados. Para tal, certos proces--sos são necessários e os ritos são feitos de forma a empregar esses processos». Em outras palavras, você é condicionado a eles. Este é o segredo do culto».

Não digo que esses processos sejam o único modo de desenvolverpoder. Presumo que clarividentes profissionais, por exemplo, têm algurm método de ensino ou treinamento para desenvolver o poder que possuerm naturalmente. E possível que seu método seja superior ao da bruxaria; pos--sivelmente, eles conhecem o sistema das bruxas e todo o ensinamento en­volvido, mantendo-os como um segredo de profissão. As bruxas tambérm crêem que, de um modo misterioso, "dentro do círculo elas estão entre oss mundos" (este mundo e o próximo) e que "o que acontece entre os mundoss nada tem a ver com este mundo". Para formar sua bateria de vontades;, inteligências masculinas e femininas são necessárias em pares. Na praticai, são comumente marido e mulher, mas há jovens que fazem ligações quee freqüentemente acabam em casamento. Há também, claro, pessoas soltei­ras, ou alguns cujos consortes respectivos não são, por alguma razão qual­quer, membros do culto. Ouvi de alguns puristas convictos que nenhurm homem ou nenhuma mulher casada deveria pertencer, ou assistir, a ne­nhum clube ou sociedade à qual seus respectivos parceiros não pertences­sem; mas tais visões estreitas não são parte da bruxaria.

A bruxaria não foi, e não é, um culto para todos. A não ser que você tenha uma atração para o oculto, um senso de fantástico, um sentimentoâ& que você pode escorregar por alguns minutos deste mundo para o outro mundo de encantamento, ela não terá uso para você. Com ela você podee obter paz, acalmar os nervos e diversos outros benefícios, apenas com companheirismo, mas para obter os efeitos mais fundamentais você devee tentar desenvolver qualquer poder oculto que possa ter. Mas é inútil tentair desenvolver tais poderes, a não ser que você tenha tempo e um parceiro adequado, não sendo apropriado chamar sua tia solteirona, mesmo se ela for romântica; pois bruxas, para ser realista, têm poucas inibições e se quiserem produzir certos efeitos elas o fazem de maneira simples. Embora a maior parte de suas atividades seja para o bem, ou ao menos não têm nada de mau, certos aspectos dão à Igreja da Inglaterra e aos puritanos aa chance de acusá-las de toda espécie de imoralidades, culto ao Diabo e ca­nibalismo, como já mostrei. 


A tortura às vezes fez com que algumas pobres coitadas confessassem tais impossibilidades, para induzir o questionador a permanecer longe da verdade. O fato de seu Deus ter chifres fez com que o povo o confundisse com o Diabo. O fato de que as bruxas fossem freqüen­temente pessoas de alguma posse que merecesse ser roubada deu o incen­tivo; a tortura e os ferros em brasa fizeram o resto. O temor cristão e o fogo cristão prevaleceram. Os poucos membros remanescentes do culto retira­ram-se e continuam em segredo desde então. Estão felizes praticando seus adoráveis antigos ritos. Eles não querem converter: converter significa fa­lar: falar significa aborrecimento e semiperseguição. Tudo o que desejam é paz.

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