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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Deus disso e deus daquilo.

Hoje vivemos em uma cultura predominantemente (e relativamente) monoteísta. A transição para o paganismo pode ser libertadora, mas como uma criança que se lambuza com o doce pela primeira vez, também pode ser prejudicial se o estudante não for atento a algumas noções básicas do movimento neopagão que tendem a se generalizar ou banalizar se não devidamente refletidas. 


Desde o Renascimento vemos o surgimento de "manuais" de mitologia que, como uma faca de dois gumes, serviram tanto para reacender o interesse pelo universo mítico dos povos antigos na mesma frequência que desmerecem essas divindades, resumindo os deuses a figuras cômicas ou trágicas, reduzindo-os a sofrer as experiências e ambições humanas e enchendo suas personalidades de defeitos. Essa interpretação não é de todo equivocada dentro de uma esfera da literatura ou das artes no geral, mas no paganismo como prática espiritual a abreviação de Afrodite como "a deusa do amor" ou de Apolo como um azarado no amor pode ser extremamente prejudicial. 


De vez em quando circulam por aí "receitas" de rituais que envolvem a "presença" de divindades "patronas" do assunto desejado. Por exemplo, se quer beleza ou amor, faz-se um ritual à Vênus. Se quer sucesso, à Júpiter, quando se procura por oportunidades de trabalho, à Mercúrio. Como em um corredor do supermercado, a bruxa escolhe a dedo a divindade com o mesmo critério que escolhe a cor das velas, a toalha do altar ou o aroma dos incensos. Isso pode soar moralista ou ofensivo, mas longe de ser essa a intenção, é simplesmente isso que eu vejo por aí. E não só vejo como também experimentei dessas mesmas coisas quando comecei a percorrer esse caminho.

Marte de Velásquez está
quase que totalmente despido.
Despido pela coragem, talvez
pela benevolência, mas seu
capacete ainda denuncia que
confiança não pode ser a
mesma coisa que fé. 
Uma das maiores críticas ao politeísmo é justamente o looping de um senso comum histórico e mitológico baseado nessa "literatura de manuais": os deuses só existiriam para explicar aquilo que o ser humano não entendia. Por isso existiriam deuses do sol, deuses da lua, da chuva, do trovão, do tornado, do vulcão em erupção. Quando são patronos dos sentimentos humanos, reduzem a esfera de atuação desses Antigos a cargos de deuses e deusas do amor, da fertilidade, do comércio, do poder, do trabalho, da beleza etc. Literalizam-se coisas que não podem ser literalizadas. Enquadram, cartesianamente, as divindades em tabelas, com os dias da semana, com as horas do dia e do interesse do momento. Hoje eu acendo um incenso para Hera, amanhã para Afrodite.

E eu insisto: reverenciar diferentes deuses em diferentes momentos não é errado, mas diferente disso, até pode ser maravilhoso. O problema está na diminuição da esfera de "atuação" desses deuses e "simplificação" dos seus "poderes". Por exemplo, Vênus não é só a deusa do amor. Ela interferiu ativamente na Guerra de Tróia, sendo uma das principais responsáveis, ainda que indiretamente, pelo nascimento de Roma mais tarde que, por si só, é foi uma das bases da civilização ocidental. Mais do que o amor, Vênus simboliza a atração, os desejos e as paixõeshumanas. Não é a toa que apaixona-se por Marte, pois o amor e a guerra estão estritamente vinculados. Aqui, Vênus não representa só o amor passional, mas o amor ao sucesso, o amor à glória, o amor que faz o desejo tornar-se fascínio e este, consequentemente, tornar-se uma realidade gloriosa.

Diana não é só a deusa da lua. Por trazer a lua crescente em sua testa, é patrona da noite, da escuridão, das trevas, do inconsciente e do mundo dos sonhos. Algumas vezes retratada como virgem caçadora, outras vezes como Grande Mãe e outras, ainda, como uma velha sábia muito próxima a Hécate. Ela é irmã de Apolo cujo símbolo é o sol pois as trevas não são maiores nem inferiores que a luz: e que podem ser tão belas quanto. Durante séculos e mais séculos frente a presença cristã era Diana que guiava a cavalgada noturna das bruxas, levando-as ao sabá, ao êxtase e aos excessos além-humanidade.

Esse mito de Diana (ou Selene de acordo com algumas versões) pode parecer bobo e até infantil. Mas seu significado é profundo: O eterno sono de Endimião pode simbolizar a devoção do poeta, a inclinação ao mundo sombrio e fascinante da lua e dos sonhos desse além-humanidade. 
O que eu quero com esse pequeno texto é atentar para a simplificação dos deuses. Eles nunca são só a representação de um fenômeno da natureza, nunca são só deus disso ou deus daquilo. É evidente que eles têm esferas de atuação, mas isso não pode restringir, isso tem de ser libertador. Eles também não são só "aspectos" dos arquétipos inconscientes humanos. Eles são tudo isso, e também nada disso. 

Fonte: Diannus do Nemi

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